Elaborando perdas em missões
Por: Eliete Gomes
Por: Eliete Gomes
Por: Eliete Gomes
Quando pensamos em luto, normalmente pensamos na morte de alguém que amamos. Mas a vida missionária pode nos colocar diante de muitos outros tipos de perdas. Algumas são evidentes; outras acontecem de maneira silenciosa e, muitas vezes, nem sequer reconhecemos que estamos vivendo um processo de luto.
Toda experiência pessoal de perda significativa envolve um processo de luto. Luto é a reação diante da perda de algo ou alguém que era significativo para nós.
Para um missionário, essa realidade pode assumir muitas formas.
Pode ser o fim de um ministério que durante anos ocupou um lugar importante na nossa vida. Pode ser a saída de um país onde construímos relacionamentos, aprendemos uma língua, conhecemos uma cultura e criamos raízes. Pode ser o retorno inesperado do campo por causa de visto, perseguição ou enfermidade. Pode ser a perda de um discípulo que decidiu seguir outro caminho. Pode ser até a perda de um sonho que tínhamos para nossa vida ou para o ministério.
Algumas dessas situações são compreendidas pelas pessoas ao nosso redor como perdas. Outras não.
E é justamente aí que podemos encontrar o luto não reconhecido.
O luto não reconhecido acontece quando uma pessoa experimenta uma perda significativa, mas essa perda não é socialmente reconhecida ou validada. A pessoa sofre, mas não encontra necessariamente espaço para expressar sua dor ou receber o apoio de que precisa.
Isso pode acontecer com muita facilidade na vida missionária.
Imagine um missionário que precisa deixar o campo antes do planejado por causa de uma enfermidade. Todos podem dizer: “Ainda bem que você voltou”, “O importante agora é cuidar da saúde” ou “Deus tem outro propósito para você”.
Tudo isso pode ser verdade.
Mas, ao mesmo tempo, existe uma perda.
Ele perdeu pessoas, relacionamentos, projetos, sonhos, responsabilidades e talvez anos de investimento em algo que considerava parte importante de sua vocação.
Ou pense naquele ministério que terminou de maneira saudável. Não houve fracasso, conflito ou escândalo. Simplesmente chegou ao fim. Mesmo assim, existe saudade. Existe uma mudança. Existe uma parte da história que terminou.
E, às vezes, por ser um final “normal”, sentimos que não temos direito de sofrer.
Mas temos.
Nem toda perda é fracasso. E nem todo luto significa falta de fé.
A própria dinâmica missionária envolve muitas transições. Mudamos de país, cidade, equipe, ministério, função e relacionamentos. Entramos em novos contextos e, muitas vezes, precisamos deixar para trás aquilo que construímos.
O missionário que sabe que retornará para casa daqui a alguns meses pode começar a sentir a perda antes mesmo de partir. É o chamado luto antecipado: a experiência de sofrer diante de uma perda que ainda acontecerá.
Talvez você já tenha experimentado isso.
Você ainda está no campo, mas já sente saudade das pessoas.
Ainda está trabalhando no ministério, mas sabe que ele está chegando ao fim.
Ainda está cercado pelos amigos, mas sabe que em breve precisará dizer adeus.
Isso também faz parte do luto.
Reconhecer que estamos sofrendo é um primeiro passo importante.
Reconhecer a dor não significa ser menos espiritual.
Às vezes, no ambiente missionário, podemos ter a tendência de espiritualizar rapidamente aquilo que estamos sentindo. Dizemos: “Deus está no controle”, “Foi a vontade de Deus”, “Precisamos seguir em frente”.
Sim, Deus está no controle.
Sim, precisamos continuar caminhando.
Mas isso não significa que não podemos sentir dor.
A dor da perda precisa ser reconhecida e expressa para que possa ser sarada.
Uma perda que não pode ser compartilhada pode se tornar uma dor solitária.
Falar sobre o acontecimento, lembrar o que foi perdido e compartilhar aquilo que estamos sentindo não muda o passado, mas pode nos ajudar a reorganizar a vida diante da nova realidade.
Por isso, talvez seja importante encontrar um espaço seguro em alguém com quem você possa conversar.
Um amigo.
Um líder.
Um colega de ministério.
Alguém que não tenha pressa de explicar sua dor, mas esteja disposto a ouvi-la.
Como diz a frase : “A dor quando dividida, fica dor menos doída.”
Às vezes sabemos que estamos mal, mas não sabemos exatamente o que estamos sentindo.
É tristeza?
Raiva?
Frustração?
Culpa?
Medo?
Solidão?
Saudade?
Decepção?
Alívio?
Podem existir várias emoções ao mesmo tempo.
Nomear aquilo que sentimos pode nos ajudar a compreender melhor o que está acontecendo dentro de nós. Nomear emoções deve ser parte do processo de lidar com experiências intensas.
Não precisamos ter vergonha das nossas emoções.
Elas fazem parte da nossa humanidade.
Reconhecer a dor, falar sobre ela e nomear nossas emoções não é o suficiente para elaborar o sofrimento.
Existe um próximo passo: entregar toda a nossa dor a Deus.
A Bíblia não apresenta a fé como uma tentativa de negar a dor. Os Salmos estão cheios de pessoas que choram, perguntam, lamentam e apresentam sua dor diante de Deus.
Talvez uma das formas mais sinceras de oração seja simplesmente dizer:
“Senhor, isto doeu.”
“Eu sinto falta.”
“Eu não entendo por que isso aconteceu.”
“Estou triste.”
“Estou decepcionado.”
“Tenho medo do que vem agora.”
“Ajuda-me a entregar isso a Ti.”
Deus não precisa que escondamos nossa dor para demonstrarmos nossa fé.
Pare por alguns minutos e pense:
O que eu perdi ao longo da minha caminhada missionária?
Talvez tenha sido uma pessoa.
Um relacionamento.
Um ministério.
Um país.
Uma equipe.
Uma oportunidade.
Um sonho.
Uma posição.
Uma expectativa sobre como sua vida missionária seria.
Talvez tenha sido algo que ninguém ao seu redor reconheceu como uma perda.
Mas você sabe que perdeu.
Se existe uma dor que ainda não foi reconhecida, talvez este seja o momento de dar nome a ela.
Não tenha medo de reconhecer sua dor.
Não tenha vergonha de falar sobre ela.
Não pense que sentir saudade significa que você não está pronto para seguir em frente.
Elaborar uma perda não significa esquecer aquilo que foi perdido. Significa aprender a viver de uma nova maneira depois da perda.
E, nesse caminho, você não precisa caminhar sozinho.
Há pessoas que podem ouvir você.
Há pessoas que podem caminhar com você.
E, acima de tudo, há um Deus que continua presente quando aquilo que era importante para nós já não está mais onde costumava estar.